Pediatria

Diarreia e vómitos nas crianças - guia prático

Ver um filho a vomitar ou com diarreia é daqueles momentos em que o instinto parental entra em modo “alerta máximo”. O início dos sintomas costuma ser abrupto, o ritmo assusta e parece que o corpo não consegue “reter nada”. Mas, na maioria das vezes, estamos perante uma gastroenterite aguda que melhora com cuidados simples. O objetivo deste artigo é dar-te estratégias para distinguir o que é esperado do que é preocupante, o que realmente ajuda (e o que só atrapalha) e qual é o plano prático para atravessar estes dias com segurança.


O que é “diarreia” e o que é “vómito”

  1. Diarreia: 3 ou mais dejeções líquidas/pastosas por dia (ou claramente mais do que o habitual daquela criança)
  2. Vómito: mecanismo de proteção - o estômago “expulsa” rapidamente aquilo que irrita (infeção, toxinas, etc.).


Na gastroenterite, o vómito pode aparecer primeiro e a diarreia a seguir, mas nem sempre vêm os dois ao mesmo tempo.


O que causa diarreia e vómitos?

Na maioria das crianças, é infeccioso e transmite-se facilmente. Por isso é comum haver história de:

  1. contacto recente com alguém com diarreia/vómitos (família, creche);
  2. suspeita de comida/água contaminada;
  3. viagem recente.


Na maioria das crianças, mesmo sem sabermos “o vírus exato”, o plano é o mesmo: suporte, hidratação e vigiar sinais de alarme.


Quanto tempo dura?

  1. vómitos: geralmente 1–2 dias e, na maioria, param até 3 dias;
  2. diarreia: costuma durar 5–7 dias e, na maioria, pára até 2 semanas.


O que muda o nível de preocupação não é só o dia da doença, mas sim os sinais de alarme e o estado geral.


O que fazer em casa


Hidratação

A base recomendada para hidratação perante vómitos e/ou diarreia são as soluções de reidratação oral (SRO), porque repõe água e eletrólitos de forma eficaz.

O truque é dar pequenas quantidades de forma muito frequente.


Como dar quando há vómitos:

  1. <2 anos: 1 colher de chá a cada 1–2 minutos
  2. crianças maiores: goles frequentes - não deixar “um copo todo de uma vez”
  3. se vomitar: esperar ~20-30 min e recomeçar mais devagar


Evitar como “bebida principal” bebidas muito açucaradas porque podem piorar a diarreia!


Alimentação

Não se deve fazer jejum por rotina. Deve-se continuar a alimentação apropriada à idade, sem forçar, porque ajuda a recuperação e reduz perda nutricional.


O que costuma resultar melhor:

  1. porções pequenas e mais frequentes
  2. alimentos simples e tolerados, sem gorduras


E o leite preciso de retirar?

Não! O leite e o iogurte podem ser mantidos se a criança quiser esses alimentos. E se a criança mama, deve continuar a amamentação, é bem tolerada e ajuda na recuperação.


Febre, dor e desconforto

A gastroenterite pode vir acompanhada de febre e mal-estar. O importante é olhar para o “conjunto”: uma criança que brinca entre episódios e aceita líquidos está diferente de uma criança prostrada.


“Preciso de medicamentos?” — o que a ciência apoia


Antibiótico?

Na maioria dos casos, não. A gastroenterite é muitas vezes autolimitada. A base é suporte e hidratação.


Antiemético para parar o vómito?

Pode ser útil quando o vómito impede a reidratação oral, mas é decisão clínica. A criança deve ser observada primeiro (não fazer automedicação em casa).


Probióticos?

Podem ser considerados apenas em situações específicas e com recomendação do médico de família ou pediatra, porque a evidência é estirpe‑específica (não é “qualquer probiótico”).


Antidiarreicos “para cortar a diarreia”?

Não! A abordagem recomendada mantém o foco em hidratação e alimentação.


Quando é que deixa de ser “só uma gastroenterite”? (sinais de alarme)

Procure avaliação urgente se houver:

  1. vómitos verdes
  2. sangue e/ou muco nas fezes
  3. dor abdominal forte/localizada ou distensão (inchaço) importante
  4. alteração do estado de consciência (sonolência e prostração), dor e limitação dos movimentos do pescoço, fontanela saliente, manchas na pele
  5. bebés pequenos (<3 meses)
  6. vómitos mantidos
  7. sinais de desidratação: diminuição marcada de urina, boca seca, ausência de lágrimas, prostração importante.


Contágio

Como prevenir que a casa toda fique assim:

  1. lavar mãos com água e sabão
  2. limpar e desinfetar superfícies após vómitos/diarreia


Diarreia e vómitos parecem um caos porque mexem com duas coisas essenciais: conforto e controlo. Mas, quando entendemos o padrão, deixamos de estar “às cegas”. Soluções de reidratação oral , comida simples sem forçar, vigiar urina/energia e conhecer os sinais de alarme.

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